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Busca por carros automáticos impulsiona demanda por produtos específicos de manutenção

Mudança no perfil da frota e envelhecimento dos veículos ampliam importância de fluidos adequados para transmissão

Entre março de 2023 e março de 2024, a procura por veículos novos com câmbio automático no Brasil cresceu 140%, segundo levantamento da Webmotors. Ao longo desses 12 meses, considerando veículos novos e usados, a busca por modelos automáticos foi 42% superior à registrada para veículos com câmbio manual. O estudo indica ainda aumento de 59% na procura por usados equipados com câmbio automático no período, apontando para uma reconfiguração do perfil da frota nacional, com efeitos diretos sobre o mercado de manutenção e a demanda por fluidos específicos para transmissão.

Esse movimento é impulsionado por fatores como o congestionamento nas grandes cidades, que torna o câmbio manual menos funcional no uso cotidiano, e pelas novas exigências do Proconve, programa federal de controle de emissões de poluentes, que pressionam as montadoras a adotar transmissões capazes de gerenciar o consumo de combustível com mais precisão. Com isso, câmbios automáticos mais modernos, com seis, oito ou dez marchas, alcançaram um patamar de eficiência que eliminou a desvantagem histórica de consumo em relação aos manuais, abrindo espaço para sua adoção em versões mais acessíveis. Modelos compactos que antes chegavam ao mercado apenas com câmbio manual hoje oferecem opção automática ou já trazem essa configuração como padrão.

No campo da manutenção, os veículos automáticos vendidos entre 2018 e 2024 começam a entrar na fase em que a transmissão exige atenção técnica mais regular, o que se reflete no aumento de atendimentos em oficinas brasileiras. Com idade média da frota nacional superior a onze anos, muitas dessas intervenções envolvem câmbios que nunca receberam manutenção preventiva adequada, seja por desconhecimento dos proprietários, seja pela ausência de uma cultura consolidada de cuidado com esse componente.

Dados da Mordor Intelligence indicam que o mercado global de reparo de transmissões automotivas deve passar de 193,34 bilhões de dólares em 2025 para 234,10 bilhões de dólares até 2030. No Brasil, a expectativa é de que esse avanço seja proporcionalmente mais intenso, em função do volume de veículos automáticos que amadureceu ao longo do ciclo recente de adoção. O cenário é sustentado menos pela complexidade técnica das transmissões e mais pelo desconhecimento sobre os requisitos para mantê-las em bom funcionamento ao longo do tempo.

Se a maioria dos motoristas está habituada a trocar o óleo do motor em intervalos regulares, poucos têm a mesma consciência em relação ao fluido da transmissão automática, responsável por lubrificar componentes internos, dissipar calor, transferir torque e garantir o controle hidráulico das trocas de marcha. Quando esse fluido se degrada por tempo de uso, contaminação ou superaquecimento, começam a surgir falhas no câmbio, que muitas vezes só se tornam perceptíveis quando o reparo já demanda custos elevados e, em alguns casos, a substituição de peças que poderiam durar muito mais com manutenção preventiva.

Nas transmissões automáticas modernas, o funcionamento é baseado em controle hidráulico de precisão, em que solenoides e corpos de válvulas regulam o fluxo de fluido que aciona as embreagens internas, define o momento das trocas de marcha e controla a pressão no conversor de torque. A contaminação ou a degradação do lubrificante compromete esse sistema de forma progressiva: um fluido oxidado forma depósitos que obstruem passagens internas, enquanto a presença de ar no circuito o torna compressível, gerando atrasos e imprecisões nas trocas. Nesses casos, o desgaste avança antes que o motorista perceba qualquer alteração no comportamento do veículo.

O superaquecimento é apontado como o fator que mais acelera a degradação do fluido. Transmissões operadas acima de 90°C de forma recorrente consomem o lubrificante em ritmo muito superior ao previsto nos intervalos de manutenção convencionais, situação comum em trânsito intenso, uso prolongado em altas temperaturas ambiente ou reboque frequente. Trajetos curtos, abaixo de seis a oito quilômetros, também prejudicam o sistema, pois impedem que a transmissão alcance a temperatura ideal de operação e favorecem o acúmulo de umidade no fluido ao longo do tempo.

Alguns hábitos de condução contribuem para o desgaste prematuro, como engatar a marcha “D” imediatamente após a partida, sem aguardar o aquecimento mínimo do sistema, ou posicionar o câmbio em “P” antes de acionar o freio de mão em aclives. Essas práticas transferem esforços a componentes que não foram dimensionados para absorver esse tipo de carga de forma recorrente, encurtando gradualmente a vida útil da transmissão.

À medida que as transmissões automáticas incorporaram mais marchas, componentes mais compactos e maior carga térmica por volume reduzido de óleo, os fluidos também precisaram evoluir em composição e desempenho. Os lubrificantes que atendiam câmbios de quatro marchas, comuns nos anos 1990, não são tecnicamente adequados para os sistemas atuais, tanto por diferenças de viscosidade quanto pela ausência de aditivos exigidos pelos projetos mais recentes. Os fluidos modernos são formulados com viscosidade mais baixa, o que reduz o atrito interno e contribui para a eficiência de combustível, tornando-se parte do atendimento às normas globais de emissões.

Esses produtos também precisam garantir estabilidade térmica e oxidativa para resistir à degradação em temperaturas elevadas, contar com modificadores de fricção que assegurem trocas de marcha sem deslizamento nas embreagens internas e aditivos que evitem a formação de espuma, preservando a incompressibilidade do fluido no circuito hidráulico. A compatibilidade com materiais de vedação, ligas metálicas e componentes eletrônicos presentes nas transmissões mais recentes integra as especificações, tornando o desenvolvimento dessas formulações mais complexo do que há duas décadas.

Atualmente, algumas fabricantes projetam transmissões com requisitos próprios e homologam fluidos específicos para seus sistemas, com composição, viscosidade e pacotes de aditivos definidos de acordo com as características de cada projeto. O uso de lubrificantes genéricos ou inadequados pode anular garantias e acelerar o desgaste de componentes dimensionados para operar com um fluido particular, o que transforma a escolha do produto correto em uma decisão técnica com impacto direto na durabilidade da transmissão.

O avanço da eletrificação também começa a influenciar esse cenário. Modelos híbridos e elétricos, cuja presença cresce no mercado brasileiro, utilizam transmissões integradas a motores elétricos e demandam fluidos com propriedades dielétricas, compatibilidade com materiais específicos desses componentes e capacidade de suportar taxas de resfriamento mais altas do que as transmissões convencionais exigem. Embora esse segmento ainda represente uma parcela minoritária da frota, seu crescimento já orienta o desenvolvimento de novas formulações pela indústria de lubrificantes, que acompanha essa transição com investimentos em pesquisa e processos de homologação junto aos fabricantes de transmissão.

No médio prazo, o desafio mais evidente recai sobre a cadeia de manutenção. O aumento da frota com câmbio automático no Brasil exige que oficinas invistam em capacitação técnica e ferramentas de diagnóstico adequadas aos sistemas eletrohidráulicos modernos, que distribuidores e varejistas de autopeças qualifiquem seus portfólios de fluidos específicos e que os proprietários entendam que a transmissão automática requer manutenção regular com o lubrificante correto. Mesmo com a escolha crescente da população pelo câmbio automático, os cuidados que esse tipo de transmissão demanda ainda não foram incorporados com a mesma naturalidade pelos motoristas.

Marcelo Martini é gerente de Vendas do Aftermarket da FUCHS, maior fabricante independente de lubrificantes e produtos relacionados do mundo.

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